Governança, conformidade e sustentabilidade: desafios estratégicos das empresas em 2026
O ano de 2026 chega com um cenário desafiador para organizações de diferentes portes. Novidades regulatórias e demandas crescentes de stakeholders por transparência, associadas a eventos climáticos extremos e um ambiente econômico e geopolítico instável, geram aumentam a pressão por práticas éticas e colocam a governança corporativa e a sustentabilidade no centro da estratégia empresarial.
Além de cumprir normas, as empresas e seus tomadores de decisão precisam antecipar riscos, rever modelos de negócio e integrar a agenda ESG à tomada de decisão, para manter competitividade, reputação e capacidade de geração de valor em longo prazo.
Este artigo foi baseado na conversa entre Isabela Scarioli, sócia-diretora e líder de estratégia e planejamento da BH Press Comunicação e Sustentabilidade, e Pedro Rezende, sócio e líder do núcleo de Conformidade do Aroeira Salles Advogados, que você também pode assistir no vídeo abaixo. Na conversa, eles destrincham cenários e refletem sobre perspectivas para 2026 no âmbito da governança corporativa e da agenda ESG.
Gestão de riscos: o ponto de partida para decisões estratégicas
Um dos principais desafios para 2026 é a gestão de riscos corporativos. Em um ambiente macroeconômico, geopolítico e social instável, conhecer os riscos do negócio torna-se essencial.
“As empresas terão muitos desafios ao longo de 2026 em temas relacionados à governança, integridade e conformidade. Se eu pudesse elencar o principal, eu diria que é a gestão de riscos. Eu costumo dizer que pior do que o risco não tratado é o risco não conhecido.” – Pedro Rezende
A gestão de riscos precisa ser proativa e não apenas reativa, ou seja, deixar de se basear apenas em crises ou no noticiário, e passar a ser preventiva e integrada ao planejamento estratégico, considerando impactos de curto, médio e longo prazo.
O que se percebe, é que empresas que revisam constantemente seus riscos e, com isso, recalibram sua estratégia de negócio, atentas às mudanças de cenário, aumentam sua resiliência e reduzem a exposição a perdas reputacionais, financeiras e operacionais.
Mudanças regulatórias em 2026 e o impacto para empresas
O ambiente regulatório brasileiro passará por transformações relevantes, com impacto transversal nos negócios:
- Reforma tributária, com implementação gradual e mudanças na tributação sobre consumo e renda;
- Tributação de dividendos, que já mobilizou empresas no final de 2025;
- Exigência de relatórios de sustentabilidade, alinhados aos padrões IFRS S1 e IFRS S2, para empresas de capital aberto;
- Avaliação mais rigorosa de programas de integridade, especialmente para empresas que contratam com o poder público.
As mudanças regulatórias exigem leitura de cenário, planejamento e conformidade, sob risco de aumento de passivos e perda de oportunidades estratégicas. A contratação de boas consultorias para acompanhar essas adequações pode fazer a diferença.
IFRS S2 e por que olhar para as mudanças climáticas
As mudanças climáticas deixaram de ser um tema periférico e passaram a ser um risco material e transversal para todas as empresas, independentemente de porte ou setor.
“As mudanças climáticas vão acontecer e vão te afetar, você mapeando os riscos que elas trazem para o seu negócio ou não. A diferença é a sua capacidade de lidar com os problemas que elas vão trazer.” – Isabela Scarioli
Eventos extremos mais frequentes impactam cadeias produtivas, logística, custos operacionais e seguros. A partir de 2027, empresas listadas na B3 deverão publicar relatórios referentes ao exercício de 2026, de acordo com as normas IFRS S1 e S2, este último tratando especificamente dos riscos climáticos e seus impactos financeiros.
A adequada produção desses relatórios exige diversas ações voltadas à avaliação de temas materialmente relevantes para o negócio sob a perspectiva socioambiental. Nesse cenário, o mapeamento de riscos climáticos – físicos e de transição -, a definição de estratégias claras de mitigação e adaptação, além do estabelecimento de metas, métricas e governança sobre o tema, são essenciais. Na prática, isso reforça a necessidade de tratar a sustentabilidade como um tema transversal, e não restrito a uma única área da organização.
Integridade e cadeia de valor como critérios de competitividade
Programas de integridade deixaram de ser exclusividade de grandes corporações ou apenas daquelas que atuam em determinados mercados, como o setor financeiro. Cada vez mais, empresas de todos os portes e mercados são avaliadas por seus clientes e parceiros em relação à sua governança e integridade corporativa, tornando a conformidade um fator essencial para a sobrevivência de negócios.
A lógica é simples, o risco do parceiro também é o risco do negócio.
Grandes empresas já exigem padrões mínimos de governança, ética e sustentabilidade de seus fornecedores, com a crescente exigência de avaliações socioambientais como parte dos critérios de seleção. E a necessidade vai além, em muitos casos, as organizações investem na formação da cadeia de valor para garantir conformidade.
Hoje, a integridade corporativa engloba áreas como o combate à corrupção, direitos humanos, sustentabilidade, combate ao assédio moral, sexual e eleitoral, e condutas éticas no relacionamento com stakeholders. Aspectos ambientais – como emissões, gestão de resíduos, uso de água e energia – também fazem parte da avaliação de fornecedores, quando pertinente.
“As empresas são parte da sociedade. Durante muito tempo, a gente tratou os negócios como se eles fossem um grupo apartado e cada vez mais eles são parte da sociedade. Eles são atores sociais que tem muita relevância e precisam acompanhar o espírito do tempo.” – Isabela Scarioli
Governança como base da agenda ESG
A agenda ESG, para ser verdadeira e gerar valor de longo prazo para o negócio, deve começar pela governança. É a partir da governança corporativa e dos processos de tomada de decisão que se define como temas estratégicos para o negócio são geridos pela organização, inclusive quanto à sua priorização e à alocação de recursos. Uma boa governança contribui para integrar os aspectos ESG à gestão do negócio de forma perene, estratégica e planejada e não apenas circunstancial.
“Quando a gente fala em agenda ESG, a gente está falando de uma sigla que merece ser lida de trás para frente. Começar a ler a agenda ESG pelo G, pela governança, porque é ali que são tomadas as decisões, que são desenhadas e implementadas as estratégias. É ali que é preciso trabalhar para convencer sobre a capacidade de geração de valor dessa nova forma de fazer negócio.” – Pedro Rezende
Sem o engajamento de conselhos, diretorias e lideranças, a sustentabilidade corre o risco de se tornar apenas um exercício burocrático e não um vetor de transformação do negócio e da sociedade, como se espera que possa ser.
Risco como oportunidade, inovação e vantagem competitiva
Empresas que conseguem antecipar riscos e tendências saem na frente. Em um cenário de juros elevados, por exemplo, o acesso a títulos sustentáveis, como green bonds e social linked bonds, pode representar uma vantagem competitiva concreta.
Além disso, a inovação atrelada à sustentabilidade surge como um dos maiores diferenciais estratégicos para os próximos anos. Soluções baseadas na natureza, novos modelos de negócio e engajamento de stakeholders são caminhos promissores para geração de valor.
“As empresas que conseguirem fazer uma leitura adequada de cenários, que enxergarem de forma bastante transversal como o seu negócio é impactado por riscos, vão sair na frente. Elas terão mais capacidade de se adaptar e de se preparar para situações potenciais de crise, antes que elas ocorram ou que se tornem uma externalidade negativa para o negócio.” – Pedro Rezende
2026 como o ano de revisão
Governança, conformidade e sustentabilidade não podem mais serem vistos como temas acessórios. Ao contrário, cada vez mais se consolidam como condições para a sobrevivência e o crescimento dos negócios.
Empresas que compreendem esse cenário, investem em gestão de riscos, integram a agenda ESG à estratégia e comunicam isso de forma clara e transparente certamente estarão mais preparadas para enfrentar desafios — e aproveitar oportunidades — em um mundo em constante transformação.
Assinam:
Isabela Scarioli – Sócia-diretora e líder de estratégia e planejamento da BH Press Comunicação e Sustentabilidade
Pedro Rezende – Sócio e líder do núcleo de Conformidade do Aroeira Salles Advogados